Evandro Carvalho

África do Sul 2010: a volta dos veteranos

Terminada a fase eliminatória da Copa do Mundo 2010 ontem, apurou-se os 32 finalistas para o campeonato que será disputado ano que vem na África do Sul. Pela primeira vez na história a Copa do Mundo não terá estreantes ou selecionados que disputam pela primeira vez a fase final. África do Sul 2010 será uma Copa de “veteranos”. Pode-se considerar duas exceções, mas elas se restringem aos nomes. A Sérvia, assim chamada, vai pela primeira vez. Mas um dia jogou como Iugoslávia e em 2006 esteve na Alemanha como Sérvia e Montenegro. O exemplo cabe também para Eslováquia, que já foi por duas vezes vice-campeã do mundo ostentando o nome de Tchecoslováquia. É bom lembrar que República Tcheca e Eslováquia, hoje, são nações distintas.

Embora veteranos, alguns selecionados voltam depois de muitos anos e Copas ao Mundial. São candidatos em potencial para serem eliminados ainda na fase de grupos. A Nova Zelândia esteve pela última vez em 1982, na Copa da Espanha. Não é mera coincidência o fato dos neozelandeses estarem de volta a uma Copa depois que a Austrália passou a disputar as eliminatórias pela Ásia. A Argélia classificou-se contra o Egito depois de uma “guerra” campal no Sudão, em campo neutro. Haviam mais soldados no estádio do que torcedores. Os argelinos estiveram pela última vez em Copas no Mundial de 1986, disputado no México. Em 1982, aprontaram uma zebra histórica contra a então Alemanha Ocidental: vitória de 2 a 1. Após 44 anos a Coréia do Norte volta a uma Copa do Mundo. Em gramados ingleses, em 1966, os norte-coreanos conseguiram a façanha de eliminar a Itália e por pouco não despacharam Portugal num jogo incrível onde chegaram a estar vencendo por 3 a 0. Honduras é outra seleção que viu muitas Copas pela televisão. Sua última participação foi em 1982.

Se a lógica persistir, Brasil ou Argentina ganham a Copa do ano que vem. Isso porque as Copas disputadas fora da Europa sempre foram vencidas por Brasil ou por Argentina. Pelo retrospecto, o Brasil de Dunga é franco-favorito ao título. Itália, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Portugal e Holanda têm condições de triunfar. Já Argentina e França (esta última classificada com um erro escandaloso da arbitragem contra a Irlanda) chegam à Copa em pandarecos. Precisam ainda montar um time e recuperar o prestígio. Com a disposição dos times nos grupos (o sorteio será no próximo dia 04 de dezembro), um prognóstico mais preciso poderá ser feito. Não seria nada mal se o Brasil caísse na mesma chave de Nova Zelândia e Honduras, por exemplo. São veteranos, mas nem tanto.

A minissaia da discórdia

A reação desproporcional dos alunos da Uniban perante a minissaia ou mini-vestido trajado por uma estudante traz a tona (mais uma vez) um angustiante questionamento. Que conceitos de moral, ética e cidadania têm os jovens de hoje? É de assustar a reação em cadeia, quase unânime, que se alastrou pelo campus da Uniban em São Bernardo do Campo, decorrente de uma peça do vestuário feminino. É bom frisar: falamos apenas de uma peça do vestuário feminino. O que está em debate não é o gosto duvidoso da estudante, nem tampouco a violação de regras de conduta ou coisas do gênero; mas sim, a origem da revolta, asco ou fobia pela tal peça.

A formação intelectual do homem dito moderno (pode-se dizer “formatação” ou “configuração”) está atrelada diretamente com o espectro da comunicação de massa. Independente de suas origens, este novo modelo de ser humano, forjado na caldeira da globalização, é educado, condicionado e finalmente seduzido para o consumo. Suas atividades (condução da vida pessoal e profissional) miram o consumo. Seja para coisas mínimas como comprar o sabonete da sexy-appeal da telenovela ou para as coisas mais complexas como constituir um modelo de religiosidade que reconforte o espírito perante as aflições e angústias. Hoje se compra Jesus Cristo nas igrejas como se compra caramelos na confeitaria.

Medido pelo que consome, e não pelo o que produz em benefício da coletividade, o ser humano chamado moderno já não sabe exatamente de que origem vem, também pouco se importa com o impacto de suas atitudes e atuação no mosaico da sociedade e, pior, não faz a menor idéia de seu próprio papel nos chamados relacionamentos interpessoais. Se este ser humano dito moderno entender que a minissaia é inconveniente, cabe a agressão, a ofensa, a violência, a estupidez. Criatura híbrida que é, afinal seus pares da Aldeia Global consomem os mesmos bens culturais, o homem moderno não faz o exercício da empatia, nem tampouco exercita sua já remota e difusa alteridade.

Se os bárbaros high-tech do Século XXI não aceitam a minissaia, tão cultuada nos anos de 1970 e 1980, o que será das chamadas minorias? Que tipo de intolerância é esta que agride uma mulher que usa minissaias? Graças à má aplicação da tecnologia das comunicações no processo educacional e no próprio mass media, o mundo caminha para uma sociedade de paus e pedras onde debates sobre minissaias (a exemplo) terão mais importância do que discussões sobre a capacidade do homem de apontar o norte para sua sobrevivência harmoniosa e justa perante seus pares. Neste mundo novo, plástico e antropofágico, só se espera o triunfo da indústria cultural e de suas frivolidades.

Trópicos mais tristes

As relações que o indivíduo trava com o outro é o parâmetro principal que norteia os estudos sobre a nossa suposta civilização. É do senso comum o fato de que a história se resuma a uma cíclica, intermitente e porque não, etérea luta de classes. É claro que não só a história, mas como também o modus operandi das civilizações modernas (estas principalmente) não funcionam tão unicamente com este mecanismo. Mas é certo de que, para que se almeje ou vislumbre um novo modelo de existência e de interação com o semelhante, alguém precisa estar em desvantagem, se é que este termo se aplica.

Em desvantagem, ou solapado por não se incluir em nenhum grupo que exerça influência de alguma forma, ou por não ter uma formação intelectual capaz de esclarecer quem o é ou em que contexto o está, ou ainda pelo simples fato de contribuir tão somente com a mão-de-obra à produção de capital, ou ainda por outras circunstâncias que vão desde o fanatismo religioso até a segregação racial, o homem que emerge na aurora do Século XXI naturalmente buscará soluções às suas mazelas, mesmo porque a vida tornar-se-á insuportável nas próximas décadas, especialmente nos grandes centros urbanos onde, não por acaso, está boa parte da população mundial.

O legado do antropólogo Claude Lévis-Strauss, que morreu aos 100 anos na última terça-feira, foi tentar entender a disposição e funcionamento de sociedades primitivas ou que tipo de relação exerce o indivíduo destas sociedades com a natureza espacial, a natureza de seu semelhante e a natureza de suas divindades. Disposição e funcionamento bem diferentes das sociedades do homem emergente do Século XXI, mas não menos complexas. Assim o Estruturalismo, termo cunhado ao postulado científico de Strauss, consolidou-se como uma revolução na antropologia e alçou o nome do etnólogo no rol dos grandes pensadores do Século XX.

“Saudades do Brasil” e “Saudades de São Paulo”, duas obras já crepusculares de Strauss, registram as memórias do antropólogo nos anos em que esteve no Brasil, seja imerso em comunidades indígenas ou lecionando na USP – Universidade de São Paulo, então recém inaugurada na década de 1930. Influenciado por outros dois vultos do pensamento moderno, o linguísta Roman Jakobson e o sociólogo Émile Durkhein, o também escritor Lévi Strauss entende que estas duas últimas obras são amargas constatações de que o que ele viu e sentiu naquela época - o que foi decisivo para que se enveredasse pela antropologia - não existe mais. Homenageado há três anos numa universidade na Europa, o autor de “Tristes Trópicos” lamentou a maneira com que o homem trata o planeta. “O mundo começou sem o ser humano e terminará sem ele”.

Plástico, violento e virtual

A Guerra do Rio de Janeiro vitimou novos inocentes após o anúncio, coincidência (?), feito pelo Coi - Comitê Olímpico Internacional de que a cidade sediará em 2016 os Jogos Olímpicos. Os morros do Rio, ocupados por gente “expelida” das camadas sociais privilegiadas é a amostra dramática dos tortuosos e incertos caminhos por onde a civilização sugere apontar. Trata-se de um mundo regido pela égide frívola e plástica do consumo. A explosão da violência, em especial nos ditos países pobres e muitas vezes decorrente do narcotráfico, é um sintoma preocupante de que o “compro, logo existo” legitima e condiciona a existência ao poder de consumo.

O Brasil, recém-ingressado no denominado capitalismo de massa, é um exemplar significativo de país multi-étnico, multi-cultural e grande o suficiente para os fenômenos negativos da migração interna de grandes contingentes populacionais. Tais condições propiciaram os choques sociais. Expelidos pelos privilegiados, os ex-escravos não tiveram para onde correr; subiram o morro. A tragédia quotidiana do Rio de Janeiro já é centenária. O cenário de descontrole e anomia, que impera hoje, já foi apontado por várias correntes de pensadores há 40, 50 anos – em especial o Prof. português Boaventura de Souza Santos.

De igual forma outros grandes centros sangram a dramática sobrevivência de milhões que se amontoam no espaço conhecido como periferia. A ocupação desordenada destes espaços, impulsionada pelas migrações, traduz o quanto o Estado brasileiro esteve preocupado com a questão, hoje um caminho sem volta, problema insolúvel. Se antes o lugar (centro-periferia) constituía-se um problema sociológico, hoje as ações determinam a sorte do homo-sapiens do Século XXI. Sem barreiras físicas, o destino de milhões trafega em código binário pela Internet. É o que o geógrafo Milton Santos chamou de “forças cegas e poderosas” em seu célebre A Natureza do Espaço. Se a perspectiva do homem espacial sugeria um alento para a transformação do espaço, hoje não faz mais sentido. O homem virtual interage num novo conceito de espaço, desplugado do mundo real.

Como no México de Audous Huxley, a civilização será plástica, consumidora de SOMA e alheia a selvageria e violência da periferia. De nada se espera dela, assim como as proles descritas por George Orwell no distópico 1984 não se podia esperar. Se no Rio de Janeiro é desconcertante a disposição de suas belezas naturais ao lado das mazelas e misérias da favela, imagine o que está sendo embrionado pela globalização e sua Aldeia Global, tão bem alertada numa mesa de restaurante na cidade de Frankfurt em plena Segunda Guerra Mundial por Theodor Adorno.

Grosseria sem limites

“Mercedes Sosa, a cantora do bumbo argentina. Dia 4, aos 74 anos, de doenças associadas ao subdesenvolvimento latino-americano, como o mal de Chagas, em Buenos Aires”. Este é o obituário que a revista Veja, a revista de maior circulação no Brasil e que se auto-proclama “indispensável” fez referência à morte de Mercedes Sosa, a “Voz da América”. Dispensável dizer, assim como a revista, a grosseria desferida de maneira lacônica a um dos ícones artísticos da América Latina. “Tudo” isso em nome da cruzada ideológica do grupo Abril.

Mercedes Sosa não foi só a cantora de bumbo argentina a qual a revista se refere. Ela já se apresentou na Capela Sistina, Coliseu de Roma e no badalado Carnegie Hall, na cidade de Nova York. Sua voz ecoou pelas Américas das angústias como um bálsamo aos povos reprimidos por metrópoles, ditaduras ou transnacionais dos ditos países desenvolvidos. Embora tenha afirmado a vida inteira de que seu ofício tão somente era cantar (e cantar de maneira belíssima como sempre o fez), não há como dissociá-la dos movimentos populares ou de esquerda de um modo geral, tão difundidos do Rio Bravo até a Terra do Fogo.

E nesse ponto a Veja não perdoa. Ao contrário de outros organismos de imprensa no Brasil (salvo as exceções), que fazem a propaganda ideológica da direita liberal de maneira velada, a Veja expõe as vísceras de seu discurso de extrema direita sem pudores, cerimônias e, em alguns casos, como este, sem o menor vestígio de decência. Tudo o que diz respeito às esquerdas de um modo geral, independente da manifestação, seja filosófica, intelectual ou até mesmo artística é motivo de escárnio, deboche, pilhagem e truculentos e articuladíssimos ataques. A Veja e o grupo Abril estão escrevendo um dos mais tristes capítulos da imprensa brasileira, quiçá do mundo.

Ao menos, o que não ocorre com frequência, a gritaria foi intensa. Seja na própria seção de cartas da revista, sejam jornalistas de outros veículos (inclusive do exterior) ou na vasta profusão de blog’s na Internet , este obituário causou indignação. Não se comenta, mas a campanha publicitária da revista em outras mídias sugere que a publicação não é “indispensável” e que, até mesmo, o mais ingênuo leitor sabe que falta hoje na revista o que muita gente Viu quando a mesma foi lançada há mais de 40 anos, a única coisa que transforma o jornalismo em algo imprescindível: a credibilidade.

Retórica descompassada

A crise econômica desencadeada ano passado nos Estados Unidos, decorrente do setor imobiliário daquele país, levantou a questão sobre o grau de intervenção do Estado na gestão da economia. Em tempos de liberalismo econômico e rios caudalosos e invisíveis de dinheiro que irrigam a economia global, tal questão parecia estar esquecida. Parecia. A participação da Casa Branca no episódio, injeção de bilhões de dólares para salvar o sistema financeiro, de difícil negociação no parlamento americano, foi decisiva para evitar o colapso. Já se passou um ano e a ciranda do capital especulativo volátil voltou. Não há dúvidas que nos próximos anos um novo solavanco irá sacudir a economia. Terá o Estado dinheiro suficiente para amenizar este novo abalo?

Se por um lado o liberalismo econômico balança, pululam regimes intitulados de esquerda, especialmente na América Latina. Tais regimes, o de Hugo Chávez na Venezuela em particular, tentam contrapor, rivalizar ou questionar a legitimidade do liberalismo econômico enquanto modelo ideal de economia. Na geopolítica, estes governos respondem pela lacuna deixada pela União Soviética, embora muito longe estejam de exercer liderança tal qual os russos exerceram. Se idealizam um Estado democrático ou não, é fato que estes governos coexistem com uma necessidade que o modelo liberal não supri – o direito à elementar sobrevivência. O discurso populista de Hugo Chávez, Rafael Corrêa, Zelaya, Lula (mais discreto), entre outros, é direcionado aos que sobrevivem à margem das benesses do capitalismo de massa.

O Brasil, assim como a Índia, Rússia e China, tem seguido o receituário do liberalismo econômico, o que o alçou à condição de “país emergente”. Entenda-se “emergentes” países que entenderam muito bem como solidificar sua economia aplicando o chamado capitalismo de massa ou criando cenários para o consumo daqueles que outrora tinham baixo poder de compra. Não por acaso, as quatro nações acima citadas tem um grande contingente populacional. Todavia, não cabe alçar o Brasil, Rússia, China e especialmente a Índia ao patamar similar a países como a França, Espanha ou Noruega. O IDH – Índice de Desenvolvimento Humano medido pela Onu – Organização das Nações Unidas dos emergentes ainda está muito aquém de níveis básicos de qualidade de vida.

Com discurso descompassado segue a imprensa brasileira. Em linhas gerais, condena o intervencionismo do Estado à economia por entender que este tipo de prática é ultrapassado. Também entende que os governos ditos de esquerda são um atraso para as nações onde ora se instalam, e mastigam excessivamente o discurso calcado da democracia. Condena Cuba, Venezuela, Honduras. Mas esquece da China, governo totalitário que agride os direitos humanos sem cerimônias. Por fim, não sabem exatamente o que fazer, ou o que fazer mais, com o governo Lula. De denúncias infundadas à criação de inúmeras CPI’s, setores da imprensa brasileira continuam a fazer crítica sistematizada ao governo em defesa de seu próprio interesse ou dos grupos econômicos hegemônicos que defendem. Tamanha estratégia já tem como conseqüência a perspectiva de que no Brasil a corrupção segue incólume na seara da impunidade, como se nunca na história deste país tal fato jamais tivesse existido – especialmente quando o Brasil era governado pelos próceres plutocráticos draconianos da pseudo social-democracia brasileira, niilista por excelência.

Órfãos desorientados

No princípio desta semana a Coreia do Norte realizou testes nucleares em suas cercanias, testes estes que provocaram abalos sísmicos na região. De igual forma abalados, os países do mundo ocidental reagiram de imediato, condenando de maneira veemente o governo de Pyongyang. O argumento das nações ditas modernas é que a Coreia do Norte descumpriu arbitrariamente os tratados internacionais de não proliferação de armas de destruição em massa.  Além dos testes nucleares, os norte-coreanos lançaram mísseis de longo alcance em direção do Mar do Leste, que fica exatamente entre as Coreias do Sul e Norte e Japão. Além disso, a Coreia do Norte subiu o tom do discurso contra a Coreia do Sul, que já está em alerta máximo contra um possível ataque.

A Coreia do Norte é um dos poucos países comunistas restantes no mundo. Com o fim da União Soviética, o país tem passado por severas dificuldades econômicas e muito pouco cresceu na última década. A exemplo de Cuba, esta nação também sofre com sanções e embargos econômicos impostos pelos países ocidentais desenvolvidos. Nos últimos anos Pyongyang estreita relações comerciais com a vizinha China que, a rigor, ainda é um país comunista, embora com os flancos abertos à sedução do capital.

Independente da diplomacia ou falta dela, o governo da Coreia do Norte é um fóssil do passado. Trata-se de mais uma nação órfã do colo protetor da defunta União Soviética. Iguais aos norte-coreanos, resistem (para o bem ou não) cubanos, iranianos, líbios, paquistaneses, afegãos ou nações africanas famélicas. Alguns destes países, governados por fósseis, têm arsenais nucleares prontos para serem utilizados ao menor destempero. Há ainda o novo inimigo (oculto): o terrorismo em escala planetária, que não mais explode cafés, mas derruba símbolos e arranha-céus.

Por mais anacrônico que possa parecer, a União Soviética faz falta no mundo. Não só exatamente a União Soviética, mas uma liderança opositora à hegemonia política e econômica dos Estados Unidos. Em seu célebre “O colapso da modernização”, o sociólogo alemão Robert Kurz apontou a derrocada do capitalismo com seu próprio triunfo/isolamento. Se tiranos governantes de países de direita seguem os ditames ou orientação dos Estados Unidos, falta a alguns tiranos do outro lado (comunistas ou islâmicos) a bússola de uma potência opositora. Bússola e correção, no caso norte-coreano.

E os americanos, do norte, conheceram Galeano…

A 5.a Cúpula das Américas, encerrada no último domingo, não teve resultados práticos. O debate sobre os efeitos da crise econômica mundial e possíveis ações a serem tomadas não esteve na pauta das discussões. Sequer o documento oficial do encontro teve rubricadas as assinaturas dos estadistas presentes – somente o primeiro-ministro de Trinidad & Tobago, Patrick Manning, anfitrião do encontro, é quem assinou o documento. Além do mais, Cuba não enviou nenhum representante a Port of Spain. A Cúpula só não foi mais protocolar, pois o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, sinalizou a aproximação de seu país com a Venezuela, do presidente Hugo Chávez, além de comentar sobre o possível fim do embargo econômico imposto à Cuba.

Que Cuba resiste intolerantemente ao fim de um regime político e econômico que mais parece um fóssil, é algo questionável. Mas tão mais questionável é a resistência da Casa Branca em “afrouxar as amarras” que “sufocam” o povo cubano. Mais questionável ainda é falar de embargo à Cuba e estender o lastro diplomático a países de regimes fascistas que agora se “lambuzam” com o capital, caso da China. Com Barack Obama, quase 40 anos mais jovem que Fidel Castro, a mão piedosa da diplomacia americana dá sinal de que será estendida. Talvez esteja aí o erro: tratar Cuba como um país moribundo é menos inteligente do que tratar a Ilha como um parceiro.

De longe os americanos tratam os outros americanos como parceiros, exceção feita ao insípido, inodoro, invisível e chato Canadá. Em cerca de 200 anos de história, os Estados Unidos sempre trataram os países latino-americanos como nações subservientes, política e economicamente. Para o Brasil, colocou sua Inteligência, a CIA, a serviço dos anos de chumbo da ditadura militar, a qual, de maneira absolutamente irresponsável e inconsequente, o jornal Folha de São Paulo denominou “ditabranda” em um de seus editoriais.

Brilhante intelectual que é, Obama certamente já leu As Veias Abertas da América Latina, livro do jornalista uruguaio Eduardo Galeano, o qual Hugo Chávez o presenteou em uma das reuniões da Cúpula das Américas. Obra profunda que conta os séculos de saques, morticínio, espoliação e exploração promovidos em especial por Portugal, Espanha e Estados Unidos.

O gesto de Chavez transformou a obra de Galeano num best seller na sociedade monoglota americana. Conta o blog do jornal The New York Times que o livro do jornalista liderou os acessos no site da Amazon por quase 1 semana. Para quem sequer conhece a brilhante obra de Noan Chonsky, norte-americano que vocifera o desastre da globalização no deserto árido da intelectualidade americana, Chavez provocou um prodígio - na prática, o único resultado prático da 5.a Cúpula das Américas.

A invasão do povo

José Rainha Jr., dissidente do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) promoveu a invasão de cerca de 2 mil militantes a 20 fazendas na região do Pontal do Paranapanema, no interior de São Paulo. Intitulada de Carnaval Vermelho, a ação foi realizada entre os dias 22 e 24 deste mês e teve como objetivo protestar contra o governo do Estado de São Paulo.

Luiz Antônio Marrey, secretário estadual da justiça e da defesa da cidadania de São Paulo, entende que as invasões do grupo de Rainha têm fins políticos e que, supostamente, este mesmo grupo já recebera cerca de 10 milhões de reais do Governo Federal, o que, inclusive, é alvo de investigação do Ministério Público no que se refere à aplicação destes recursos.

Versar sobre a legitimidade ou não das ações do MST e correlatos é chover no molhado. A questão agrária no Brasil está muito a quem do ideal, e bem o sabem as lideranças do MST. O Movimento não postula tão somente a distribuição equânime das terras, mas sim uma reflexão por parte da sociedade brasileira, ou de seus pretensos idealizadores, sobre a luta de classes enraizada nos primórdios de nossa civilização.

Se o fazem conscientemente, é uma outra história. Mas o MST e suas ações representa o sopro dos movimentos populares ou de esquerda no Brasil que ainda resta. E se levarmos em conta o impacto destas ações, Rainha ou o Movimento chamam a atenção, pois agem ignorando a lei. Atraindo os holofotes da imprensa, geram a indignação de nossa chamada sociedade organizada que aspira ter a aparência dos modelos vigentes de civilização propostos pelo neoliberalismo econômico.

A imprensa por sua vez, não entra neste debate. O que se viu nas páginas dos jornais ou na tevê é se o Governo, o governo Lula, tem fiscalizado corretamente a aplicação dos recursos destinados ao Movimento ou se manifestado sobre o Carnaval Vermelho e as invasões ocorridas em Pernambuco – esta última provocando a morte de duas pessoas.

Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), criticou ostensivamente as invasões. Para ele “dinheiro público para quem comete ilícito também é uma ilicitude”, disse aludindo sobre os repasses do Governo ao Movimento.

As instituições democráticas brasileiras não podem, de fato, apoiar (mesmo que seja tão somente colocar um boné na cabeça) movimentos populares marginais que agem à margem da Lei. Isso causa asco nas ancestrais elites brasileiras.

Receituário de uma economia primata

A Embraer, uma das maiores fabricantes de aeronaves de pequeno porte do mundo, anunciou um corte de seu quadro de funcionários no último dia 20, antes do feriado de Carnaval. A empresa demitirá 4.270 trabalhadores, o que representa 20 % do universo total de seus empregados. A Embraer argumenta que o atual cenário econômico externo é o motivo pela dispensa, haja visto que o volume de suas exportações representa 93% de seu faturamento. O presidente da Embraer, Frederico Curado, disse que a decisão é irreversível, embora também tenha anunciado que a empresa não mais demitirá doravante e que medidas paliativas (manter os planos de saúde dos demitidos, por exemplo) serão adotadas.

O presidente Lula, que recebeu Curado em seu gabinete e chegou a pedir que a decisão das dispensas fosse revista, entende que o corte da Embraer foi o maior golpe refletido no Brasil em decorrência da crise econômica mundial, deflagrada ano passado. Sindicatos ligados à Força Sindical já anunciaram também que vão questionar na justiça as demissões da empresa fabricante de aeronaves.

Seguindo a máxima de que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, a Embraer transfere para seus trabalhadores o ônus provocado pela sangria desatada da crise dos mercados imobiliários norte-americanos. Infelizmente tem sido assim. No mundo afora e no Brasil as demissões têm sido constantes, destaque para a indústria automobilística – onde a degola parece não ter fim. As grandes corporações, das chamadas grandes economias, entendem que a culpa pela instabilidade de suas grandezas é da base da cadeia alimentar antropofágica do ideário globalizante: o trabalhador. Se as margens de lucros recuaram, mesmo que nem de longe se aproximem do prejuízo, o penalizado é sempre o trabalhador.

O caso da Embraer chama a atenção, pois suas vendas recuaram em 30% conseqüência de sua carteira de clientes, quase toda externa. Sugere mais uma vez que a crise no Brasil teve pouco efeito. Pamela Cox, vice-presidente do Banco Mundial para o Subcontinente e Caribe disse que “O Brasil sentirá menos a crise na América Latina” onde se projeta a sombria margem de crescimento de 0,3% em média para os países da região. Se as contas realmente vão mal, é preciso rever a dependência de mercados externos. O corte brutal e sumário de mão-de-obra faz parte do receituário da economia primata do modelo vigente em franca decadência.

RSS Twitter: @hevandrocarvalh

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