Evandro Carvalho

"E aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche.

O monstro parido.

Uma comunidade inteira (milhares de famílias) sendo despejada pela polícia (milhares de soldados), equipada com helicópteros, blindados e tudo o mais que sugere uma tenaz força repressiva. Tudo isso, por volta das oito horas da manhã de um domingo. A desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), ocorrida há quase duas semanas, é mais um episódio de como a falta de diálogo tem se tornado uma constante em São Paulo. Por lá, esgotam-se com mais rapidez as refregas judiciais. Dão-se avisos, prazos, ultimatos e depois justifica-se a violência – tudo isso para se fazer, estritamente, o cumprimento da lei.

Procede que jamais, em países que supostamente são proclamados ou autoproclamados democráticos, deve-se utilizar da força policial e da violência para a resolução de qualquer coisa que seja. É uma aberração. Um governo ou governante eleito democraticamente não pode usar a força policial contra seu próprio povo. Isso é tirania. São Paulo parece caminhar em sentido contrário a uma realidade que a cada dia se torna mais patente – a de que o país tem se tornado menos injusto para com seu povo – especialmente os mais pobres. Polícia não é para isso – expulsar a cassetetes crianças, mulheres, idosos, enfermos, famílias, na calada da manhã.

Não demorou muito para que a artilharia pesada das trincheiras ideológicas soasse suas carabinas. Azuis e vermelhos se dispuseram a uma luta venal, verborragia justificando isso, justificando aquilo – a formação do pelotão de fuzilamento para execução do culpado. Enquanto isso, no campo de refugiados (igrejas, ginásios), a população do Pinheirinho se acotovelou e se espremeu, sem teto, sem pertences, sem dignidade. Crianças deixaram de fazer matrícula na escola, por falta de endereço. Os credores de Naji Nahas têm onde morar, moram muito bem por sinal. O que vão fazer com a propriedade que outrora foi o Pinheirinho não se sabe, mas seguramente servirá de munição para azuis e vermelhos.

A desocupação do Pinheirinho, esse monstro parido pela justiça de São Paulo, cuspiu seu fogo numa manhã de domingo. Nem de longe incomodou a figura amorfa e híbrida do governador paulista, que certamente àquela hora cumpria a liturgia de seus compromissos religiosos, sentado no banco da igreja, elevando seus pensamentos ao divino no deleite da penitência dominical. Bater em gente simples, atirar contra gente indefesa, expulsar famílias de seus lares é nojento, é asqueroso, é imoral, é indecente. Não há justificativa para tamanha barbaridade.

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